quinta-feira, 25 de junho de 2009

É o jeitinho brasileiro, minha gente!



"Isso faz parte... da cultura do brasileiro! Só tem gente nova lá na frente, e fui eu quem levantou! É sempre assim mesmo...". Só pensei que em outros lugares, em outras culturas, tais afirmações não seriam ditas em voz alta dentro de um ônibus. Apenas a pessoa se levantaria, em humilde e sincera atitude, para que um idoso pudesse se sentar, sem explicitar aos passageiros a sua "nobre ação do dia". Não ficaria, sequer em pensamento, esperando que outro tomasse a iniciativa. Muito menos cobraria isso aos berros, exteriorizando sua raiva em ficar em pé, e assim, incomodando a todos.

Esperar a iniciativa. Esperar que o governo melhore, que os preços sejam justos, que alguém segure os cadernos enquanto o outro se equilibra no ônibus, que se torne rico, que aquela oportunidade no trabalho apareça, que vença na vida um dia. Enquanto isso, vão tomando a cervejinha... E claro, reclamando, cada vez em voz mais alta, para que alguém (aquele alguém que vai tomar a tal iniciativa) escute de qualquer maneira.

E ao passo que tudo vai passando, o passado se torna o presente. A corrente que segura a caneta do banco, aquela usada para escrever nos envelopes de depósitos, continua a amarrar a falta de educação do brasileiro. E ninguém se ofende com isso. Aos domingos, único dia em que muitos tem tempo para entretenimento e descanso, a televisão aberta empurra horas intermináveis de vídeo cassetadas e a cobertura de nordestinos voltando para as suas terras. E ninguém se irrita com isso. Nas rádios populares e com as maiores audiências, sequências tocam cronometradas as mesmas músicas, como um adestramento por método de repetição. Músicas que tocam em celulares por todos os cantos: eu estou na moda! E ninguém se acha ridículo por isso. Canais de comunicação noticiando os atos secretos, e os comentários ecoando em tom de revolta: "ora, mas que pouca vergonha, mais uma do senado!". E ninguém sabe o que é isso, afinal, são secretos. Carros que fecham os cruzamentos, buzinas usadas à revelia, carros "estacionados" na calçada, aquela moça quase atropelada na faixa de pedestres ("sua metida folgada!"), pessoas deseperadas para subir e descer dos coletivos. E ninguém faz sua parte.

Talvez mesmo um dia o "alguém" apareça. O Sr. Iniciativa, satisfazendo os anseios paternalistas da nação; o Jesus que não desfila na SPFW, mas que trará pão e Madonna.

Certo, certo... Recriminem a minha pessoa e achem incoerente o presente blog, afinal os textos abaixo justificam tudo por um contexto histórico, pelas cicatrizes da exploração sofrida pelo Brasil que ainda são causadas e se perpetuarão, e blá, blá, blá... Mas esse discurso-senso-comum-sem-senso-nenhum faz parte dos "ninguém". É cômodo, barato e vem até com cafezinho, feito na hora.

E é esse jeitinho brasileiro, de empurrar como uma atendente de telemarketing, as responsabilidades pra debaixo do tapete, ou melhor, pra cima do equador. Enquanto o patrimônio público for considerado como só seu, seu espaço adquirido, e ao mesmo tempo a sujeira nas ruas inundando bueiros; enquanto bêbados contratarem motoristas, para passar na blitz há alguns metros da boate, para depois assumirem a direção, e enquanto policias lucrarem também por fazer vista grossa em relação a isso, não vai adiantar chorar no colo de Lula.

A falta de educação, de princípios, ética e dignidade não estão, nem nunca estarão, na grade do MEC. A busca por hábitos de vida saudáveis, como manter o ambiente em que se vive despoluído de garrafas pet, não faz parte de uma ação outorgada aos políticos. Acabar com a Nova Crackolândia, construindo um sistema hidráulico nos prédios, para jogar água nos drogaditos e espantá-los, não vai solucionar. Nem mesmo a construção de dois mil, seiscentos e quarenta e três centros de reabilitação. Haja tapete para tanta poeira... Quem quer cheirá-la?

Vamos comprar um backzinho... Vamos furar a fila... Porque todos vão se resolver, com jeitinho, seja na hora em que eu for assaltado, ou quando vier alguém roubar o meu direito.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Leitor



Qual se sobrepõe: a moral ou o direito positivado? Os princípios que regem a maioria das culturas devem, acima de qualquer lei imposta, serem sempre preservados e garantidos? Mesmo que a norma não assegure direitos fundamentais, como a vida, a liberdade, a dignidade?

O nazismo foi positivado. O autoritarismo é, em suas abrangências de poder, legal. Do outro lado do ocidente, mulheres podem ser apedrejadas. Acima disso, será que existem o bem e o mal universais?

No filme "O Leitor" é possível notar o choque entre essas questões. No julgamento, Hanna Schmitz afirma ter sido responsável, como guarda de Auschwitz , para que os presos judeus não fugissem. Dessa forma, se justificou por não ter aberto as portas da igreja em chamas, para que saíssem. Quando o juiz insistia em lhe perguntar por que simplesmente não abrira as portas, para evitar que centenas morressem, bateu com convicção sua mão sobre a mesa, com os pulsos fechados, reafirmando sua condição de guarda, buscando ser entendida, como se fosse algo totalmente inevitável à ela.

Hanna legitimou as leis que vigoravam no nazismo. E naquele momento estava sendo julgada, de acordo com outras leis, pela sua conduta. Mudança jurídica, mudança moral (não necessariamente nessa ordem).

Um assaltante é condenado criminalmente e também pela sociedade em sua maioria; mas em seu grupo, a sua prática pode ser considerada digna. Não que todos os criminosos sejam necessariamente assim, ou que seus crimes sejam justificados por isso, mas, da mesma maneira que Hanna, vigora em suas mentes uma obrigação como uma função, um dever inerente aos conceitos de bem ou mal que alguém venha a considerar.

Ter a liberdade de questionar o governo, ou mesmo consentir com sua corrupção, discutir e até negar as imposições da família, beber coca-cola, encarar com normalidade uma favela ao lado do seu condomínio ou ver bunda na tv, são tidos como imoralidade social, religiosa e conduta passível de pena em vários lugares do planeta. E em sua cabeça, tudo isso está certo...

Então, assim como as normas jurídicas, a moral também é mutável, variando proporcionalmente aos interesses, muitas vezes não coletivos. Chego à conclusão de que não visam a satisfação de necessidades consideradas básicas à qualquer pessoa, anteriormente citadas, como a vida, a liberdade e a dignidade.

Se assim não fosse, em nosso código não estaria expresso o direito à igualdade e à essas garantias fundamentais, enquanto nos deparamos com mendigos, violência, insegurança. Estaria lá escrito, com letras garrafais, que tais fundamentos são somente para mim e para você, classe média e alta (que termo demodè).

Imparcialidade no direito? Não, obrigada. Bondade e compreensão na moral? Muito menos. Tenho a impressão de vivermos em um mundo com uma falsa moral e juridicidade rasa, justamente por serem tão conflitantes, em muitos países, com o que realmente precisa ser estabelecido.

Enquanto uns são incluídos em constituições e são considerados os politicamente corretos, mesmo que isso signifique ficar calado para não "corromper o comunismo" ou aceitar, com prazer, que sua filha tenha o clitóris mutilado; outros ficam à margem esperando algum barquinho para levá-los.

Alguns acham que a terra firme é mais segura, ou se acomodam, mesmo com o solo infértil e a seca. Já outros tantos aprendem a nadar, com muito esforço, dedicação, trabalho e luta, e podem morrer afogados. E ainda, mais dificilmente, vão beber toda a água para acabar com o sistema. É uma pena que a maioria não sinta sede. Bastaria um copo para cada. Porém, se bebessem com a taça da moral e das aprovações jurídicas, logo vomitariam.