segunda-feira, 30 de março de 2009

Não é xenofobia...



O Ministério da Educação apresentou, no dia 25 de março, uma proposta de substituição dos exames vestibulares tradicionais por uma espécie de Enem ampliado, à diretoria da Andifes, associação das 55 universidades federais. Idêntico ao modelo norte americano, inaplicável na estrutura brasileira.

O imediatismo parece ser sempre a solução, em busca de resultados de fachada. Como se não bastasse a implementação do programa social PROUNI, em que grande parte dos ingressantes na vida acadêmica encontra-se despreparada (ah, perdida mesmo, feito cego em tiroteio! Tomara que as balas não os atinjam antes do último período...), tanto no sentido de assimilação e desenvolvimento do pensamento crítico, sobre as diferentes apresentações de perspectivas analíticas, em relação ao ensino médio, que tem por base ser didático e alicerçante; como em até saber como se comportar durante as aulas, palestras, congressos, permeando em sua incapacidade de compôr discussões que não envolvam pessoalidade e espírito juvenil de revolta infundada.

Mas aí vem o site do governo, em sua página especial do PROUNI, como uma amostra do orgulho de ser barsileiro, exibindo a manchete: "PRONI forma primeiros 56 mil bolsistas". Prefiro a substituição por uma mais verídica e enfática, ainda com o meu lado jornalístico pulsante: "PROUNI forma primeiros 56 mil bosistas como os operadores do Brasil." E logo abaixo da matéria: "Quantos deles estão aptos a desenvolver pesquisas, passar em exames da ordem, estruturar o cenário político e científico do país, promover e desenvolver fundamentos teóricos em suas respectivas áreas de formação, participar do cenário internacional (sem que se mudem pra lá também, né?!), agregando reconhecimento aos esforços do governo brasileiro em ter investido nos filhos da pátria-mãe? Ou então, quantos deles seguiram, durante os anos de academia, apenas fórmulas vindas de "cadernos pré-fabricados" para mentes a serem fabricadas?

São apenas números. Apenas uma contabilização que não significa, necessariamente, um progresso no ensino brasileiro. E isso pode representar danos irreversíveis, tanto para a história do país como para a história individual. Partindo da qualificação prática da mão-de-obra em detrimento à base teórica, os novos profissionais serão meros instrumentos insuficientemente aptos ao trabalho, carregando nos braços apostilas americanas ou britânicas, e ainda mais terrível: sem ter capacidade de contestar ou aprimorar seus conteúdos. A eficácia e aplicabilidade das teorias estrangeiras é algo muito complexo também, porque estas podem servir de meio para a promoção de interesses de um país em relação ao outro, ideologicamente.

Sobre o indivíduo, sua expectativa de sucesso, reconhecimento e atuação efetiva (e até afetiva) no mercado e em sua área, podem ser destruídas pela competitividade esmagadora, ou com a exigência de experiência e diferenciais em seu currículo acadêmico. A massa formada que não forma opinião é moldada na forma, que derrama ao ir para o forno...

É realmente admirável, e para isso tenho que admitir os esforços do governo em melhorar a situação atual da qualidade na educação no Brasil, através do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que tem enfoque na educação básica. Entendo também que o começo parte de uma construção histórica, específica e direcionada ao país, ou seja, que nada vem "do dia para a noite". Mas aí eu pegunto: por que então tomar partido de decisões e métodos de outros países, por sinal com outras realidades de desenvolvimento, e utilizá-las em um contexto apenas emergente, como o nosso?

Vamos legitimar nossos estudantes com casacos de times de futebol americano, bolsas de estudo de acordo com suas "capacidades" e um lanchinho no MEC Donnald's, só para comemorar!


quarta-feira, 18 de março de 2009

Reverência ao Homem-Deus

O Vaticano, por meio do L'Osservatore Romano, publicou consideração sobre a liberação de recursos para pesquisas com células-tronco, medida de Barack Obama, no último 9 de março. Segundo Ratzinger e companhia, a prática é "profundamente imoral e supérflua".

Com o engate dado pelo governo americano por meio de disponibilização de 500 mil embriões congelados, e cerca de 10 bilhões de dólares anuais à disposição de pesquisadores, doenças graves como mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e lesões paralisantes da coluna poderão ter uma chance de cura, com o desenvolvimento de tais pesquisas.

E não foi "tarefa árdua" atribuída exclusivamente ao Vaticano, essa contra-posição argumentada e fundamentada de maneira imparcial; também partiu de deputados conservadores americanos, que alegaram uma "personalidade legal desde a concepção", o que, para eles, legitima a proibição do uso dos embriões com finalidades científicas.

Quando se trata dessa "medição" da vida intra-uterina, os aspectos que envolvem essa questão estão relacionados também à legalidade ou ilegalidade do aborto. A necessidade, quase sempre inerente e incessante do homem, em colocar dogmas, limites, pontos finais, conclusões satisfatórias e verdades temporárias (absolutas para a Igreja Católica), só revela o princípio contrário a que se quer chegar: O Homem-Deus.

Com a clonagem, as descobertas da genética, o advento de pesquisas com células-tronco , por exemplo, surgiu o questionamento sobre a possibilidade do homem "brincar de Deus". Temas como ética, natureza e limite do uso tecnológico foram colocados à prova (hum, melhor utilizar o termo "debate"...). Cada posicionamento, então, revela uma solidez que parece desconsiderar o interesse social especificamente: de um lado, os que são a favor, visando o progresso científico e suas implicações de interesse, diretas ou indiretas, para empresas, governo e sociedade (esta última no sentido exclusivo de promover desenvolvimento). Do outro lado, o conservadorismo afirma a "manutenção da ordem divina", estabelecendo barreiras de moralismo.

São esses discursos tão consolidados, justamente, característicos dos Homens-Deuses. Promovem suas afirmações como verdades concretas. Além disso, não tem enfoque na causa social de sua origem, ou seja, deixam a impressão de serem o começo de um pensamento, advindo espontaneamente. É necessário abordar as causalidades, e não somente as consequências, pois assim o caminho da lógica, da coerência de resultados pode ser traçado.

Por exemplo, a excomunhão pública feita por Dom José Cardoso Sobrinho à equipe médica que realizou o aborto da menina de 9 anos (grávida do próprio padrasto), e à sua mãe. Visava ele obter informações sobre o estupro, ou as condições econômicas e sociais em que vivia a família? E o professor de Medicina da Universidade Estadual de Pernambuco, Rivaldo Mendes de Albuquerque, responsável pelo procedimento do aborto... Apresentou em suas entrevistas apenas uma leve comoção e divulgação da importância de seu trabalho como alternativa eficaz para a violência. Eficaz inclusive para a tentativa de suicídio de Isaac Vanderley, o padrasto, na prisão, no último 11 de março?

Ora, que imediatismo da porra é esse que nos acomete?! Homem-Deus, toque o seu tridente no fundo do oceano em que estamos e solucione todos os nossos problemas! Tire as crianças dos ventres, ou proclame ao seu dom de dar à vida para que não sejam tiradas! Caberá a "solução" mais simples, ao seu interesse.

Ó, Majestoso Homem-Deus, colecione embriões em seu universo, traga assim a cura a quem tanto necessita, ou desconsidere as doenças em prol de sua magnificente preponderância divina. E, depois disso, vá alimentar quem morre de fome do outro lado desse oceano.

Amém, ciência!

sábado, 14 de março de 2009

Vá viver dentro de uma bolha!



Estava ela andando pela rua, ambiente público e aberto, quando ouviu um homem, atrás de si, dizer em tom imperativo: "Nossa, esses fumantes deviam borrifar desodorante por onde passam! Esse cheiro é insurpotável!". Ao passar ao seu lado, tocou em seus ombros, de maneira quase que solidária, e falou: "Isso te faz muito mal, minha querida." Então, ela abaixou os óculos escuros, olhou bem em seus olhos e lhe disse: "Vá viver em uma bolha então."

A reação foi de espanto. "Como uma garotinha besta me fala isso?", deve ter pensado. Rebateu alertando de que era ela quem vivia em uma bolha. A resposta foi imediata: "Tanta intolerância é sinal de quem quer se isolar, afinal, tudo deve causar incômodo ao senhor, até doenças mais graves e comuns. Imagino a mesma compaixão com a situação de um mendigo fedido, o mau cheiro dele muito deve desgradá-lo também.

E a sua militância fervorosa contra o uso da maconha, não pelo fato de patrocinar a violência, a vida boa de traficantes e a manutenção do tráfico de drogas, mas simplesmente pelo cheiro forte que deixa no "seu ar". Será que não gostaria de se isolar disso tudo, ou mesmo não ia querer colocar todos em uma bolha, bem distante do seu narizinho sensível?

O seu desodorante exala odor. É a maneira de camuflar o que é irremediável às suas narinas. É um protesto ineficaz que se dissipa com o ar. É o governo promovendo suas bolsas socias. Por que não pega esse cigarro da minha mão e o joga longe? Afinal, é o seu imposto que paga o meu SUS, quando tivermos o nosso câncer de pulmão. Qualquer semi-analfabeto sabe que essa porra faz mal à saúde. Mas é essa a solução, tirana, desrespeitosa e imediata de resolver os problemas com os quais estamos habituados?

Isole-se. E o quanto antes. Porque todos continuarão a comprar cigarros. Todos permanecerão caindo em miséria. Todos colocarão vendas e bolhas para não sentir a realidade. E nem todos serão todos para você. Cuidado para não se sufocar sozinho..."


quarta-feira, 11 de março de 2009

Desabafo sobre a ineficácia anômica



Hoje fui nomeada como representante dos Direitos Humanos da OAB (pelo meu professor...). Isso porque insisto em defender certos pontos de vista um pouco intragáveis, e que costumam ser meio ridicularizados, o que ficou explícito, logo após a nomeação, com a seguinte pergunta: "Mas e o Beiramar, você realmente acha que a sua intenção é fundar uma sociedade alternativa?"

De acordo com os conceitos da anomalia em relação à ineficácia de uma norma, existem grupos que não legitimam, não concordam e não aderem a lei estabelecida; isso devido à criação de ideologias próprias, que vão contra os princípios vigentes em normas. Exemplo citado é o ato terrorista; o que é dubitativo, uma vez que os interesses são exclusivamente político-religiosos, e não caracterizam uma manifestação de revolta, um grito contra a realidade social (mesmo que tentem transparecer isso). Um conjunto de pessoas que se une para fundar uma sociedade à parte, e se negam a pagar impostos ao Estado por não usufruírem dos serviços públicos como saúde e educação exemplifica melhor o conceito expresso.

Bem, eis que surge então a indagação sobre o estado atual do Rio de Janeiro acerca da violência e desigualdade social. É óbvio que se trata, não isoladamente, de uma anomalia. O "x" dessa questão está em sua representação de ineficácia da norma. Os traficantes do Rio têm o conhecimento sobre pelo menos o básico da Constituição, sabem que seus atos são ilícitos. Mas, por que insistem em cometê-los?

A minha resposta é que essa ineficácia jurídica abrange os excluídos economica, política e socialmente. O não cumprimento das leis está ligado, dessa forma, à uma vontade de chocar, chamar a atenção e propôr uma reflexão sobre a realidade das favelas (tão "escondida" aos olhos da sociedade em geral), por meio de atos extremos de violência, tráfico de drogas, assaltos a mão armada. Não interpreto como uma simples maneira de ganhar dinheiro, de ser o rotulado "vagabundo traficante que não quis buscar suas oportunidades como as pessoas de bem".

Querem assim uma nova realidade. Não significa que queiram criar uma sociedade alternativa, mas buscar alternativas para melhorar, igualitar, o que não está aos seus alcances. Por outro lado, isso não serve como embasamento ou justificativa para cometer crimes; contudo simboliza uma ideologia vigente nas favelas, em que a exclusão e sentimento de revolta são tão iminentes.

Bem, meu querido professor, enquanto a visão a respeito dos cadáveres no asfalto do Rio de Janeiro não passar de repúdio e comoção; enquanto encararmos a violência crescente como uma doença incurável contagiada apenas por pilantras incuráveis; e enquanto acharmos que estamos em um bem estar social, a situação só tende a anomalizar.

E quem será o anômalo, cada vez mais, é o seu umbigo.


Viagem de (no) ônibus



É incrível como uma simples volta para casa em um coletivo pode revelar tanto da nossa cultura. E é mais impressionante ainda como os olhos, bocas e ouvidos muitas vezes estão fechados para essa apreciação. Não por preguiça ou falta de tempo (também porque em um ônibus não é possível realizar tarefas muito complexas...), mas sim por uma estagnação quase que generalizada.

A imagem de cada um entrando no ônibus, ainda vazio, procurando pelos lugares mais distantes do outro passageiro é a nítida expressão de uma possível aversão ao próximo. Logicamente, garanti meu assento na parte traseira; mas foi neste lugar de onde pude enxergar e analisar as mesmas atitudes. É como se fosse um instinto incessante de defesa. Sentar tão próximo à janela e colocar os fones de ouvido durante o percurso é ação de quem quer se abstrair do mundo, pelo menos até chegar à sua “toca”.

E aí o processo de individualização chama o outro de “estranho”. À toda hora você lê que é único; a crescente personalizalização de todos os seus itens; sua liberdade destacada nos outdoors. “Lute pelas suas oportunidades; é cada um por si e Deus por todos; você vai chegar lá se dedicar todas as suas forças. Pise no outro, se necessário, e nunca deite.”

Tudo isso não passa de um escudo feito “sob medida para você”, mas que na verdade serve para proteger esse sisteminha de minoria contra a possibilidade de conflitos, de desconforto social e suas consequências que podem atingir proporções revulocionárias. Afinal, quem é que não se sente confortável consigo mesmo?

E o menino de trinta e nove anos, o qual ainda é repreendido inconscientemente pela mãe para que não fale com estranhos na rua, não resiste à curiosidade e pergunta: “mas por que essa boca tão grande?”