quarta-feira, 18 de março de 2009

Reverência ao Homem-Deus

O Vaticano, por meio do L'Osservatore Romano, publicou consideração sobre a liberação de recursos para pesquisas com células-tronco, medida de Barack Obama, no último 9 de março. Segundo Ratzinger e companhia, a prática é "profundamente imoral e supérflua".

Com o engate dado pelo governo americano por meio de disponibilização de 500 mil embriões congelados, e cerca de 10 bilhões de dólares anuais à disposição de pesquisadores, doenças graves como mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e lesões paralisantes da coluna poderão ter uma chance de cura, com o desenvolvimento de tais pesquisas.

E não foi "tarefa árdua" atribuída exclusivamente ao Vaticano, essa contra-posição argumentada e fundamentada de maneira imparcial; também partiu de deputados conservadores americanos, que alegaram uma "personalidade legal desde a concepção", o que, para eles, legitima a proibição do uso dos embriões com finalidades científicas.

Quando se trata dessa "medição" da vida intra-uterina, os aspectos que envolvem essa questão estão relacionados também à legalidade ou ilegalidade do aborto. A necessidade, quase sempre inerente e incessante do homem, em colocar dogmas, limites, pontos finais, conclusões satisfatórias e verdades temporárias (absolutas para a Igreja Católica), só revela o princípio contrário a que se quer chegar: O Homem-Deus.

Com a clonagem, as descobertas da genética, o advento de pesquisas com células-tronco , por exemplo, surgiu o questionamento sobre a possibilidade do homem "brincar de Deus". Temas como ética, natureza e limite do uso tecnológico foram colocados à prova (hum, melhor utilizar o termo "debate"...). Cada posicionamento, então, revela uma solidez que parece desconsiderar o interesse social especificamente: de um lado, os que são a favor, visando o progresso científico e suas implicações de interesse, diretas ou indiretas, para empresas, governo e sociedade (esta última no sentido exclusivo de promover desenvolvimento). Do outro lado, o conservadorismo afirma a "manutenção da ordem divina", estabelecendo barreiras de moralismo.

São esses discursos tão consolidados, justamente, característicos dos Homens-Deuses. Promovem suas afirmações como verdades concretas. Além disso, não tem enfoque na causa social de sua origem, ou seja, deixam a impressão de serem o começo de um pensamento, advindo espontaneamente. É necessário abordar as causalidades, e não somente as consequências, pois assim o caminho da lógica, da coerência de resultados pode ser traçado.

Por exemplo, a excomunhão pública feita por Dom José Cardoso Sobrinho à equipe médica que realizou o aborto da menina de 9 anos (grávida do próprio padrasto), e à sua mãe. Visava ele obter informações sobre o estupro, ou as condições econômicas e sociais em que vivia a família? E o professor de Medicina da Universidade Estadual de Pernambuco, Rivaldo Mendes de Albuquerque, responsável pelo procedimento do aborto... Apresentou em suas entrevistas apenas uma leve comoção e divulgação da importância de seu trabalho como alternativa eficaz para a violência. Eficaz inclusive para a tentativa de suicídio de Isaac Vanderley, o padrasto, na prisão, no último 11 de março?

Ora, que imediatismo da porra é esse que nos acomete?! Homem-Deus, toque o seu tridente no fundo do oceano em que estamos e solucione todos os nossos problemas! Tire as crianças dos ventres, ou proclame ao seu dom de dar à vida para que não sejam tiradas! Caberá a "solução" mais simples, ao seu interesse.

Ó, Majestoso Homem-Deus, colecione embriões em seu universo, traga assim a cura a quem tanto necessita, ou desconsidere as doenças em prol de sua magnificente preponderância divina. E, depois disso, vá alimentar quem morre de fome do outro lado desse oceano.

Amém, ciência!