quarta-feira, 11 de março de 2009

Viagem de (no) ônibus



É incrível como uma simples volta para casa em um coletivo pode revelar tanto da nossa cultura. E é mais impressionante ainda como os olhos, bocas e ouvidos muitas vezes estão fechados para essa apreciação. Não por preguiça ou falta de tempo (também porque em um ônibus não é possível realizar tarefas muito complexas...), mas sim por uma estagnação quase que generalizada.

A imagem de cada um entrando no ônibus, ainda vazio, procurando pelos lugares mais distantes do outro passageiro é a nítida expressão de uma possível aversão ao próximo. Logicamente, garanti meu assento na parte traseira; mas foi neste lugar de onde pude enxergar e analisar as mesmas atitudes. É como se fosse um instinto incessante de defesa. Sentar tão próximo à janela e colocar os fones de ouvido durante o percurso é ação de quem quer se abstrair do mundo, pelo menos até chegar à sua “toca”.

E aí o processo de individualização chama o outro de “estranho”. À toda hora você lê que é único; a crescente personalizalização de todos os seus itens; sua liberdade destacada nos outdoors. “Lute pelas suas oportunidades; é cada um por si e Deus por todos; você vai chegar lá se dedicar todas as suas forças. Pise no outro, se necessário, e nunca deite.”

Tudo isso não passa de um escudo feito “sob medida para você”, mas que na verdade serve para proteger esse sisteminha de minoria contra a possibilidade de conflitos, de desconforto social e suas consequências que podem atingir proporções revulocionárias. Afinal, quem é que não se sente confortável consigo mesmo?

E o menino de trinta e nove anos, o qual ainda é repreendido inconscientemente pela mãe para que não fale com estranhos na rua, não resiste à curiosidade e pergunta: “mas por que essa boca tão grande?”