Hoje fui nomeada como representante dos Direitos Humanos da OAB (pelo meu professor...). Isso porque insisto em defender certos pontos de vista um pouco intragáveis, e que costumam ser meio ridicularizados, o que ficou explícito, logo após a nomeação, com a seguinte pergunta: "Mas e o Beiramar, você realmente acha que a sua intenção é fundar uma sociedade alternativa?"
De acordo com os conceitos da anomalia em relação à ineficácia de uma norma, existem grupos que não legitimam, não concordam e não aderem a lei estabelecida; isso devido à criação de ideologias próprias, que vão contra os princípios vigentes em normas. Exemplo citado é o ato terrorista; o que é dubitativo, uma vez que os interesses são exclusivamente político-religiosos, e não caracterizam uma manifestação de revolta, um grito contra a realidade social (mesmo que tentem transparecer isso). Um conjunto de pessoas que se une para fundar uma sociedade à parte, e se negam a pagar impostos ao Estado por não usufruírem dos serviços públicos como saúde e educação exemplifica melhor o conceito expresso.
Bem, eis que surge então a indagação sobre o estado atual do Rio de Janeiro acerca da violência e desigualdade social. É óbvio que se trata, não isoladamente, de uma anomalia. O "x" dessa questão está em sua representação de ineficácia da norma. Os traficantes do Rio têm o conhecimento sobre pelo menos o básico da Constituição, sabem que seus atos são ilícitos. Mas, por que insistem em cometê-los?
A minha resposta é que essa ineficácia jurídica abrange os excluídos economica, política e socialmente. O não cumprimento das leis está ligado, dessa forma, à uma vontade de chocar, chamar a atenção e propôr uma reflexão sobre a realidade das favelas (tão "escondida" aos olhos da sociedade em geral), por meio de atos extremos de violência, tráfico de drogas, assaltos a mão armada. Não interpreto como uma simples maneira de ganhar dinheiro, de ser o rotulado "vagabundo traficante que não quis buscar suas oportunidades como as pessoas de bem".
Querem assim uma nova realidade. Não significa que queiram criar uma sociedade alternativa, mas buscar alternativas para melhorar, igualitar, o que não está aos seus alcances. Por outro lado, isso não serve como embasamento ou justificativa para cometer crimes; contudo simboliza uma ideologia vigente nas favelas, em que a exclusão e sentimento de revolta são tão iminentes.
Bem, meu querido professor, enquanto a visão a respeito dos cadáveres no asfalto do Rio de Janeiro não passar de repúdio e comoção; enquanto encararmos a violência crescente como uma doença incurável contagiada apenas por pilantras incuráveis; e enquanto acharmos que estamos em um bem estar social, a situação só tende a anomalizar.
E quem será o anômalo, cada vez mais, é o seu umbigo.
