quinta-feira, 25 de junho de 2009

É o jeitinho brasileiro, minha gente!



"Isso faz parte... da cultura do brasileiro! Só tem gente nova lá na frente, e fui eu quem levantou! É sempre assim mesmo...". Só pensei que em outros lugares, em outras culturas, tais afirmações não seriam ditas em voz alta dentro de um ônibus. Apenas a pessoa se levantaria, em humilde e sincera atitude, para que um idoso pudesse se sentar, sem explicitar aos passageiros a sua "nobre ação do dia". Não ficaria, sequer em pensamento, esperando que outro tomasse a iniciativa. Muito menos cobraria isso aos berros, exteriorizando sua raiva em ficar em pé, e assim, incomodando a todos.

Esperar a iniciativa. Esperar que o governo melhore, que os preços sejam justos, que alguém segure os cadernos enquanto o outro se equilibra no ônibus, que se torne rico, que aquela oportunidade no trabalho apareça, que vença na vida um dia. Enquanto isso, vão tomando a cervejinha... E claro, reclamando, cada vez em voz mais alta, para que alguém (aquele alguém que vai tomar a tal iniciativa) escute de qualquer maneira.

E ao passo que tudo vai passando, o passado se torna o presente. A corrente que segura a caneta do banco, aquela usada para escrever nos envelopes de depósitos, continua a amarrar a falta de educação do brasileiro. E ninguém se ofende com isso. Aos domingos, único dia em que muitos tem tempo para entretenimento e descanso, a televisão aberta empurra horas intermináveis de vídeo cassetadas e a cobertura de nordestinos voltando para as suas terras. E ninguém se irrita com isso. Nas rádios populares e com as maiores audiências, sequências tocam cronometradas as mesmas músicas, como um adestramento por método de repetição. Músicas que tocam em celulares por todos os cantos: eu estou na moda! E ninguém se acha ridículo por isso. Canais de comunicação noticiando os atos secretos, e os comentários ecoando em tom de revolta: "ora, mas que pouca vergonha, mais uma do senado!". E ninguém sabe o que é isso, afinal, são secretos. Carros que fecham os cruzamentos, buzinas usadas à revelia, carros "estacionados" na calçada, aquela moça quase atropelada na faixa de pedestres ("sua metida folgada!"), pessoas deseperadas para subir e descer dos coletivos. E ninguém faz sua parte.

Talvez mesmo um dia o "alguém" apareça. O Sr. Iniciativa, satisfazendo os anseios paternalistas da nação; o Jesus que não desfila na SPFW, mas que trará pão e Madonna.

Certo, certo... Recriminem a minha pessoa e achem incoerente o presente blog, afinal os textos abaixo justificam tudo por um contexto histórico, pelas cicatrizes da exploração sofrida pelo Brasil que ainda são causadas e se perpetuarão, e blá, blá, blá... Mas esse discurso-senso-comum-sem-senso-nenhum faz parte dos "ninguém". É cômodo, barato e vem até com cafezinho, feito na hora.

E é esse jeitinho brasileiro, de empurrar como uma atendente de telemarketing, as responsabilidades pra debaixo do tapete, ou melhor, pra cima do equador. Enquanto o patrimônio público for considerado como só seu, seu espaço adquirido, e ao mesmo tempo a sujeira nas ruas inundando bueiros; enquanto bêbados contratarem motoristas, para passar na blitz há alguns metros da boate, para depois assumirem a direção, e enquanto policias lucrarem também por fazer vista grossa em relação a isso, não vai adiantar chorar no colo de Lula.

A falta de educação, de princípios, ética e dignidade não estão, nem nunca estarão, na grade do MEC. A busca por hábitos de vida saudáveis, como manter o ambiente em que se vive despoluído de garrafas pet, não faz parte de uma ação outorgada aos políticos. Acabar com a Nova Crackolândia, construindo um sistema hidráulico nos prédios, para jogar água nos drogaditos e espantá-los, não vai solucionar. Nem mesmo a construção de dois mil, seiscentos e quarenta e três centros de reabilitação. Haja tapete para tanta poeira... Quem quer cheirá-la?

Vamos comprar um backzinho... Vamos furar a fila... Porque todos vão se resolver, com jeitinho, seja na hora em que eu for assaltado, ou quando vier alguém roubar o meu direito.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Leitor



Qual se sobrepõe: a moral ou o direito positivado? Os princípios que regem a maioria das culturas devem, acima de qualquer lei imposta, serem sempre preservados e garantidos? Mesmo que a norma não assegure direitos fundamentais, como a vida, a liberdade, a dignidade?

O nazismo foi positivado. O autoritarismo é, em suas abrangências de poder, legal. Do outro lado do ocidente, mulheres podem ser apedrejadas. Acima disso, será que existem o bem e o mal universais?

No filme "O Leitor" é possível notar o choque entre essas questões. No julgamento, Hanna Schmitz afirma ter sido responsável, como guarda de Auschwitz , para que os presos judeus não fugissem. Dessa forma, se justificou por não ter aberto as portas da igreja em chamas, para que saíssem. Quando o juiz insistia em lhe perguntar por que simplesmente não abrira as portas, para evitar que centenas morressem, bateu com convicção sua mão sobre a mesa, com os pulsos fechados, reafirmando sua condição de guarda, buscando ser entendida, como se fosse algo totalmente inevitável à ela.

Hanna legitimou as leis que vigoravam no nazismo. E naquele momento estava sendo julgada, de acordo com outras leis, pela sua conduta. Mudança jurídica, mudança moral (não necessariamente nessa ordem).

Um assaltante é condenado criminalmente e também pela sociedade em sua maioria; mas em seu grupo, a sua prática pode ser considerada digna. Não que todos os criminosos sejam necessariamente assim, ou que seus crimes sejam justificados por isso, mas, da mesma maneira que Hanna, vigora em suas mentes uma obrigação como uma função, um dever inerente aos conceitos de bem ou mal que alguém venha a considerar.

Ter a liberdade de questionar o governo, ou mesmo consentir com sua corrupção, discutir e até negar as imposições da família, beber coca-cola, encarar com normalidade uma favela ao lado do seu condomínio ou ver bunda na tv, são tidos como imoralidade social, religiosa e conduta passível de pena em vários lugares do planeta. E em sua cabeça, tudo isso está certo...

Então, assim como as normas jurídicas, a moral também é mutável, variando proporcionalmente aos interesses, muitas vezes não coletivos. Chego à conclusão de que não visam a satisfação de necessidades consideradas básicas à qualquer pessoa, anteriormente citadas, como a vida, a liberdade e a dignidade.

Se assim não fosse, em nosso código não estaria expresso o direito à igualdade e à essas garantias fundamentais, enquanto nos deparamos com mendigos, violência, insegurança. Estaria lá escrito, com letras garrafais, que tais fundamentos são somente para mim e para você, classe média e alta (que termo demodè).

Imparcialidade no direito? Não, obrigada. Bondade e compreensão na moral? Muito menos. Tenho a impressão de vivermos em um mundo com uma falsa moral e juridicidade rasa, justamente por serem tão conflitantes, em muitos países, com o que realmente precisa ser estabelecido.

Enquanto uns são incluídos em constituições e são considerados os politicamente corretos, mesmo que isso signifique ficar calado para não "corromper o comunismo" ou aceitar, com prazer, que sua filha tenha o clitóris mutilado; outros ficam à margem esperando algum barquinho para levá-los.

Alguns acham que a terra firme é mais segura, ou se acomodam, mesmo com o solo infértil e a seca. Já outros tantos aprendem a nadar, com muito esforço, dedicação, trabalho e luta, e podem morrer afogados. E ainda, mais dificilmente, vão beber toda a água para acabar com o sistema. É uma pena que a maioria não sinta sede. Bastaria um copo para cada. Porém, se bebessem com a taça da moral e das aprovações jurídicas, logo vomitariam.


segunda-feira, 20 de abril de 2009

Muro das Maravilhas



Hoje vai ser o dia em que eles vão devolver isso para você. Neste momento você devia, de algum modo, ter entendido o que tem a fazer. Eu não creio que alguém sinta-se do modo como me sinto a seu respeito neste momento. A batida de fundo, a conversa que corre na rua, é que o fogo no seu coração está apagado. Tenho certeza que você ouviu isso tudo antes, mas você nunca realmente teve uma dúvida. Eu não creio que alguém sinta-se do modo como eu me sinto, a seu respeito neste momento. E todas as estradas pelas quais temos de caminhar são sinuosas. E todas as luzes que nos conduzem até lá estão nos cegando. Existem muitas coisas que eu gostaria de dizer para você, mas eu não sei como... Porque talvez você vai ser aquele que me salva... E no final das contas, você é o meu muro das maravilhas.
Hoje iria ser o dia, mas eles nunca devolverão isso para você. E neste momento você devia, de algum modo, ter entendido o que não deve fazer. Eu não creio que alguém sinta-se do modo como me sinto a seu respeito neste momento. E todas as estradas que conduzem até você eram sinuosas. E todas as luzes que iluminam o caminho estão cegando. Existem muitas coisas que eu gostaria de dizer para você, mas eu não sei como... Eu disse que talvez você seja aquele que me salva... E no final das contas, você é o meu muro das maravilhas.
You're my wonderwall.


quinta-feira, 2 de abril de 2009

Minha determinação anti-determinista



Tem cada coisa que leio, que instantaneamente meu estômago reage com enjoos inevitáveis, minha cabeça dói e gira ao mesmo tempo, minhas mãos tremem com o nervosismo que acelera minha respiração. Até a boca fica seca. É somente nesse momento que o determinismo biológico pode ser comprovado por uma causa exterior.

Rodrigo Constantino, em seu blog de mesmo título, escreveu no dia 29 de março um texto entitulado "O impacto do Clima na Cultura". Mesmo que no início tenha afirmado não acreditar em determinismo de nenhum tipo, seja genético, social, climático ou histórico. Nenhuma força exógena ao homem determina seu destino; termina o mesmo (e primeiro) parágrafo dizendo: A natureza contribui – para o bem ou para o mal – na moldagem da mentalidade predominante de um povo. Constantino não é Constante. Tenta abrandar a expressão"determinismo" com "contribuição". Se assim fosse, nos dias frios no Brasil, nínguém diria: "Nossa, como eu queria estar agora embaixo das cobertas... Com esse friozinho, dá vontade de ficar deitado, curtindo a chuva, tomando um café na cama...", mas iria correndo para o trabalho como um maníaco pela labuta.

Utilizando citações de Viktor Frankl, Bentham, Montesquieu, Kant, David Hume, John Stuart Mill, Malthus, Thomas de Quincey, Alfred Marshall e até de Karl Marx, Constantino fez assim uma construção fundamentada acerca do determinismo. O incrível é que baseou-se em vários pensadores, filósofos de variadas épocas históricas, mas que são, respectivamente, da Áustria, Inglaterra, França, Alemanha, Escócia, Inglaterra de novo, Inglaterra mais uma vez, Inglaterra once more, Inglaterra ever e Alemanha novamente. Imagino quanta motivação científica está atrelada às teorias, nesse aspecto.

Apresentei trabalho em sala de aula sobre Montesquieu. Slides, livrinhos nos braços, eu e minhas colegas apreensivas. Anteriormente, lembro de quando discutimos sobre o conteúdo, a metodologia e o desenvolvimento de tal apresentação. Achamos a visão crítica fascinante...

Realmente, o Barão de Montesquieu afirmou que nos países frios há menor sensibilidade aos prazeres; nos temperados, ela é um pouco maior, e, nos países quentes, ela é extrema. O calor do clima pode ser tão excessivo que o corpo perde todo o vigor. A prostração alcança, dessa maneira, até mesmo o espírito: nenhuma curiosidade ou nobreza de propósito, nenhum sentimento generoso. Todas as inclinações se tornam passivas, e a preguiça se confunde com a felicidade.

Ainda segundo ele, a formação e consolidação da democracia ou do despotismo variam, diretamente, com a proporção territorial e seu respectivo clima. Em um território extenso, de clima tropical, a probabilidade de um Estado ser despótico é muito maior, já que os indivíduos estão mais distantes uns dos outros e assim seriam mais suscetíveis à dominação. Agora, já em territórios menores, de clima temperado, a democracia é o sistema adequado. Montesquieu não aprofundou sobre essa teoria. E nem precisava.

Francês aristocrata, viveu durante parte do século XVIII, época na qual as explorações européias disseminavam pelo "mundo novo". Como legitimar essa conduta? Pobres países recém descobertos, desconhecedores do catolicismo e da cultura civilizada, dos progressos da humanidade. Dá-lhes roupas, jesuítas, tiros de fogo e "trabalho"! Como são perguiçosos, esses indígenas sem pêlos! Nem sabem como aproveitar tanta riqueza natural...Mas nós o sabemos.

Logo, a conclusão proposta por Montesquieu: a culpa, logicamente, está no clima quente e úmido e na ampla extensão dos territórios conquistados. Não é uma simples coincidência com o interesse europeu que seja neles instaurada uma dominação. É porque assim foi predeterminado...

Determinar que algo é, simplesmente porque é, não me satisfaz. E não satisfaz quem fica subordinado, colocado em uma posição desfavorável por um interesse econômico, político ou cultural. Pode o homem doutrinar, sem embasamentos científicos, para agregar valores que promovam contribuição, determinação, subordinação, escravização?

James Watson (american men) publicou artigo no qual "explicava" o dom da inteligência, de acordo com os continentes e superioridade de raças. "DefenDeus" a tese de que se o homem for negro terá, biologicamente, menos capacidade intelectual que um branco. Suposições de um "loiro de olhos azuis" sem nenhuma comprovação científica. E o pior que que ele deve pensar que um dia encontrará essa confirmação em algum gene... Pesquisas como as britânicas geralmente mais pareceriam piadinhas sem graça, não fosse a tragicidade de suas colocações: "Homossexualismo pode ser curado", "Mulheres se sentem mais atraídas por homens com carros caros, diz estudo".

(In) Constantino faz uma referência em seu texto, para contrapor a idéia determinista: A responsabilidade pelo atraso cultural brasileiro, pelo nosso “jeitinho”, pela mentalidade que enaltece a “Lei de Gérson”, não pode ser jogada nos ombros dos “loiros de olhos azuis”. Ela é somente dos próprios brasileiros. Com isso, parece interpretar a realidade como uma condição advinda do nada, e não como uma construção histórica na qual esta enraizada, ou como se a conjunção política e econômica a que faz parte fosse isolada e independente. Deve defender tal perspectiva por ter os olhinhos castanhos.

E ainda termina com a frase de Eugênio Gudin (esse eu nem precisei pesquisar para saber que é brasileiro): Os países da América Latina não precisam criar uma civilização. Ela já foi criada pela Europa nos últimos quatro séculos. Cabe-nos assimilar essa civilização. Concordo, mas acrescento: não só assimilar, como também caminhar com pernas próprias, que conduzirão a um caminho de reconhecimento da soberania brasileira como Estado e cultura, e não um objeto de determinismo do calor. A começar pela maioria dos brasileiros, que criaram o estereótipo do baiano assim como o do português.

Eis minha determinação intelectual provocada por conceitos deterministas. Provocou o contrário. E agora?

Para dançar la bamba,
Para dançar la bamba
Precisa-se de um pouco de graça!
De um pouco de graça e outra coisa.
Ai, vamos lá, vamos lá!
Ai, vamos lá, vamos lá!
Por você serei,
Por você serei, por você serei!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!

Eu não sou marinheiro!
Eu não sou marinheiro,
Sou capitão, sou capitão!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!

Ai vamos lá, ai vamos lá!
Ai, vamos, vamos, por você serei,
Por você serei, por você serei!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!

Na minha casa me chamam,
Em minha casa me chamam de inocente.
Porque gosto das garotas,
Porque gosto das garotas de 15 a 20 anos!
Ai, vamos lá, ai vamos lá!
Ai, vamos, vamos!
Por você serei,
Por você serei, por você serei!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!

Para subir aos céus,
Para subir aos céus
Precisa-se de uma longa escada,
De uma escada longa e outra pequena!
Ai vamos lá, vamos!
Ai vamos lá, vamos, por você serei,
Por você serei, por você serei!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!
Bamba, la bamba!


Yo no soy brasileiro,
soy capitan,
soy capitan,
soy capitan...


segunda-feira, 30 de março de 2009

Não é xenofobia...



O Ministério da Educação apresentou, no dia 25 de março, uma proposta de substituição dos exames vestibulares tradicionais por uma espécie de Enem ampliado, à diretoria da Andifes, associação das 55 universidades federais. Idêntico ao modelo norte americano, inaplicável na estrutura brasileira.

O imediatismo parece ser sempre a solução, em busca de resultados de fachada. Como se não bastasse a implementação do programa social PROUNI, em que grande parte dos ingressantes na vida acadêmica encontra-se despreparada (ah, perdida mesmo, feito cego em tiroteio! Tomara que as balas não os atinjam antes do último período...), tanto no sentido de assimilação e desenvolvimento do pensamento crítico, sobre as diferentes apresentações de perspectivas analíticas, em relação ao ensino médio, que tem por base ser didático e alicerçante; como em até saber como se comportar durante as aulas, palestras, congressos, permeando em sua incapacidade de compôr discussões que não envolvam pessoalidade e espírito juvenil de revolta infundada.

Mas aí vem o site do governo, em sua página especial do PROUNI, como uma amostra do orgulho de ser barsileiro, exibindo a manchete: "PRONI forma primeiros 56 mil bolsistas". Prefiro a substituição por uma mais verídica e enfática, ainda com o meu lado jornalístico pulsante: "PROUNI forma primeiros 56 mil bosistas como os operadores do Brasil." E logo abaixo da matéria: "Quantos deles estão aptos a desenvolver pesquisas, passar em exames da ordem, estruturar o cenário político e científico do país, promover e desenvolver fundamentos teóricos em suas respectivas áreas de formação, participar do cenário internacional (sem que se mudem pra lá também, né?!), agregando reconhecimento aos esforços do governo brasileiro em ter investido nos filhos da pátria-mãe? Ou então, quantos deles seguiram, durante os anos de academia, apenas fórmulas vindas de "cadernos pré-fabricados" para mentes a serem fabricadas?

São apenas números. Apenas uma contabilização que não significa, necessariamente, um progresso no ensino brasileiro. E isso pode representar danos irreversíveis, tanto para a história do país como para a história individual. Partindo da qualificação prática da mão-de-obra em detrimento à base teórica, os novos profissionais serão meros instrumentos insuficientemente aptos ao trabalho, carregando nos braços apostilas americanas ou britânicas, e ainda mais terrível: sem ter capacidade de contestar ou aprimorar seus conteúdos. A eficácia e aplicabilidade das teorias estrangeiras é algo muito complexo também, porque estas podem servir de meio para a promoção de interesses de um país em relação ao outro, ideologicamente.

Sobre o indivíduo, sua expectativa de sucesso, reconhecimento e atuação efetiva (e até afetiva) no mercado e em sua área, podem ser destruídas pela competitividade esmagadora, ou com a exigência de experiência e diferenciais em seu currículo acadêmico. A massa formada que não forma opinião é moldada na forma, que derrama ao ir para o forno...

É realmente admirável, e para isso tenho que admitir os esforços do governo em melhorar a situação atual da qualidade na educação no Brasil, através do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que tem enfoque na educação básica. Entendo também que o começo parte de uma construção histórica, específica e direcionada ao país, ou seja, que nada vem "do dia para a noite". Mas aí eu pegunto: por que então tomar partido de decisões e métodos de outros países, por sinal com outras realidades de desenvolvimento, e utilizá-las em um contexto apenas emergente, como o nosso?

Vamos legitimar nossos estudantes com casacos de times de futebol americano, bolsas de estudo de acordo com suas "capacidades" e um lanchinho no MEC Donnald's, só para comemorar!


quarta-feira, 18 de março de 2009

Reverência ao Homem-Deus

O Vaticano, por meio do L'Osservatore Romano, publicou consideração sobre a liberação de recursos para pesquisas com células-tronco, medida de Barack Obama, no último 9 de março. Segundo Ratzinger e companhia, a prática é "profundamente imoral e supérflua".

Com o engate dado pelo governo americano por meio de disponibilização de 500 mil embriões congelados, e cerca de 10 bilhões de dólares anuais à disposição de pesquisadores, doenças graves como mal de Alzheimer, diabetes, esclerose múltipla e lesões paralisantes da coluna poderão ter uma chance de cura, com o desenvolvimento de tais pesquisas.

E não foi "tarefa árdua" atribuída exclusivamente ao Vaticano, essa contra-posição argumentada e fundamentada de maneira imparcial; também partiu de deputados conservadores americanos, que alegaram uma "personalidade legal desde a concepção", o que, para eles, legitima a proibição do uso dos embriões com finalidades científicas.

Quando se trata dessa "medição" da vida intra-uterina, os aspectos que envolvem essa questão estão relacionados também à legalidade ou ilegalidade do aborto. A necessidade, quase sempre inerente e incessante do homem, em colocar dogmas, limites, pontos finais, conclusões satisfatórias e verdades temporárias (absolutas para a Igreja Católica), só revela o princípio contrário a que se quer chegar: O Homem-Deus.

Com a clonagem, as descobertas da genética, o advento de pesquisas com células-tronco , por exemplo, surgiu o questionamento sobre a possibilidade do homem "brincar de Deus". Temas como ética, natureza e limite do uso tecnológico foram colocados à prova (hum, melhor utilizar o termo "debate"...). Cada posicionamento, então, revela uma solidez que parece desconsiderar o interesse social especificamente: de um lado, os que são a favor, visando o progresso científico e suas implicações de interesse, diretas ou indiretas, para empresas, governo e sociedade (esta última no sentido exclusivo de promover desenvolvimento). Do outro lado, o conservadorismo afirma a "manutenção da ordem divina", estabelecendo barreiras de moralismo.

São esses discursos tão consolidados, justamente, característicos dos Homens-Deuses. Promovem suas afirmações como verdades concretas. Além disso, não tem enfoque na causa social de sua origem, ou seja, deixam a impressão de serem o começo de um pensamento, advindo espontaneamente. É necessário abordar as causalidades, e não somente as consequências, pois assim o caminho da lógica, da coerência de resultados pode ser traçado.

Por exemplo, a excomunhão pública feita por Dom José Cardoso Sobrinho à equipe médica que realizou o aborto da menina de 9 anos (grávida do próprio padrasto), e à sua mãe. Visava ele obter informações sobre o estupro, ou as condições econômicas e sociais em que vivia a família? E o professor de Medicina da Universidade Estadual de Pernambuco, Rivaldo Mendes de Albuquerque, responsável pelo procedimento do aborto... Apresentou em suas entrevistas apenas uma leve comoção e divulgação da importância de seu trabalho como alternativa eficaz para a violência. Eficaz inclusive para a tentativa de suicídio de Isaac Vanderley, o padrasto, na prisão, no último 11 de março?

Ora, que imediatismo da porra é esse que nos acomete?! Homem-Deus, toque o seu tridente no fundo do oceano em que estamos e solucione todos os nossos problemas! Tire as crianças dos ventres, ou proclame ao seu dom de dar à vida para que não sejam tiradas! Caberá a "solução" mais simples, ao seu interesse.

Ó, Majestoso Homem-Deus, colecione embriões em seu universo, traga assim a cura a quem tanto necessita, ou desconsidere as doenças em prol de sua magnificente preponderância divina. E, depois disso, vá alimentar quem morre de fome do outro lado desse oceano.

Amém, ciência!

sábado, 14 de março de 2009

Vá viver dentro de uma bolha!



Estava ela andando pela rua, ambiente público e aberto, quando ouviu um homem, atrás de si, dizer em tom imperativo: "Nossa, esses fumantes deviam borrifar desodorante por onde passam! Esse cheiro é insurpotável!". Ao passar ao seu lado, tocou em seus ombros, de maneira quase que solidária, e falou: "Isso te faz muito mal, minha querida." Então, ela abaixou os óculos escuros, olhou bem em seus olhos e lhe disse: "Vá viver em uma bolha então."

A reação foi de espanto. "Como uma garotinha besta me fala isso?", deve ter pensado. Rebateu alertando de que era ela quem vivia em uma bolha. A resposta foi imediata: "Tanta intolerância é sinal de quem quer se isolar, afinal, tudo deve causar incômodo ao senhor, até doenças mais graves e comuns. Imagino a mesma compaixão com a situação de um mendigo fedido, o mau cheiro dele muito deve desgradá-lo também.

E a sua militância fervorosa contra o uso da maconha, não pelo fato de patrocinar a violência, a vida boa de traficantes e a manutenção do tráfico de drogas, mas simplesmente pelo cheiro forte que deixa no "seu ar". Será que não gostaria de se isolar disso tudo, ou mesmo não ia querer colocar todos em uma bolha, bem distante do seu narizinho sensível?

O seu desodorante exala odor. É a maneira de camuflar o que é irremediável às suas narinas. É um protesto ineficaz que se dissipa com o ar. É o governo promovendo suas bolsas socias. Por que não pega esse cigarro da minha mão e o joga longe? Afinal, é o seu imposto que paga o meu SUS, quando tivermos o nosso câncer de pulmão. Qualquer semi-analfabeto sabe que essa porra faz mal à saúde. Mas é essa a solução, tirana, desrespeitosa e imediata de resolver os problemas com os quais estamos habituados?

Isole-se. E o quanto antes. Porque todos continuarão a comprar cigarros. Todos permanecerão caindo em miséria. Todos colocarão vendas e bolhas para não sentir a realidade. E nem todos serão todos para você. Cuidado para não se sufocar sozinho..."


quarta-feira, 11 de março de 2009

Desabafo sobre a ineficácia anômica



Hoje fui nomeada como representante dos Direitos Humanos da OAB (pelo meu professor...). Isso porque insisto em defender certos pontos de vista um pouco intragáveis, e que costumam ser meio ridicularizados, o que ficou explícito, logo após a nomeação, com a seguinte pergunta: "Mas e o Beiramar, você realmente acha que a sua intenção é fundar uma sociedade alternativa?"

De acordo com os conceitos da anomalia em relação à ineficácia de uma norma, existem grupos que não legitimam, não concordam e não aderem a lei estabelecida; isso devido à criação de ideologias próprias, que vão contra os princípios vigentes em normas. Exemplo citado é o ato terrorista; o que é dubitativo, uma vez que os interesses são exclusivamente político-religiosos, e não caracterizam uma manifestação de revolta, um grito contra a realidade social (mesmo que tentem transparecer isso). Um conjunto de pessoas que se une para fundar uma sociedade à parte, e se negam a pagar impostos ao Estado por não usufruírem dos serviços públicos como saúde e educação exemplifica melhor o conceito expresso.

Bem, eis que surge então a indagação sobre o estado atual do Rio de Janeiro acerca da violência e desigualdade social. É óbvio que se trata, não isoladamente, de uma anomalia. O "x" dessa questão está em sua representação de ineficácia da norma. Os traficantes do Rio têm o conhecimento sobre pelo menos o básico da Constituição, sabem que seus atos são ilícitos. Mas, por que insistem em cometê-los?

A minha resposta é que essa ineficácia jurídica abrange os excluídos economica, política e socialmente. O não cumprimento das leis está ligado, dessa forma, à uma vontade de chocar, chamar a atenção e propôr uma reflexão sobre a realidade das favelas (tão "escondida" aos olhos da sociedade em geral), por meio de atos extremos de violência, tráfico de drogas, assaltos a mão armada. Não interpreto como uma simples maneira de ganhar dinheiro, de ser o rotulado "vagabundo traficante que não quis buscar suas oportunidades como as pessoas de bem".

Querem assim uma nova realidade. Não significa que queiram criar uma sociedade alternativa, mas buscar alternativas para melhorar, igualitar, o que não está aos seus alcances. Por outro lado, isso não serve como embasamento ou justificativa para cometer crimes; contudo simboliza uma ideologia vigente nas favelas, em que a exclusão e sentimento de revolta são tão iminentes.

Bem, meu querido professor, enquanto a visão a respeito dos cadáveres no asfalto do Rio de Janeiro não passar de repúdio e comoção; enquanto encararmos a violência crescente como uma doença incurável contagiada apenas por pilantras incuráveis; e enquanto acharmos que estamos em um bem estar social, a situação só tende a anomalizar.

E quem será o anômalo, cada vez mais, é o seu umbigo.


Viagem de (no) ônibus



É incrível como uma simples volta para casa em um coletivo pode revelar tanto da nossa cultura. E é mais impressionante ainda como os olhos, bocas e ouvidos muitas vezes estão fechados para essa apreciação. Não por preguiça ou falta de tempo (também porque em um ônibus não é possível realizar tarefas muito complexas...), mas sim por uma estagnação quase que generalizada.

A imagem de cada um entrando no ônibus, ainda vazio, procurando pelos lugares mais distantes do outro passageiro é a nítida expressão de uma possível aversão ao próximo. Logicamente, garanti meu assento na parte traseira; mas foi neste lugar de onde pude enxergar e analisar as mesmas atitudes. É como se fosse um instinto incessante de defesa. Sentar tão próximo à janela e colocar os fones de ouvido durante o percurso é ação de quem quer se abstrair do mundo, pelo menos até chegar à sua “toca”.

E aí o processo de individualização chama o outro de “estranho”. À toda hora você lê que é único; a crescente personalizalização de todos os seus itens; sua liberdade destacada nos outdoors. “Lute pelas suas oportunidades; é cada um por si e Deus por todos; você vai chegar lá se dedicar todas as suas forças. Pise no outro, se necessário, e nunca deite.”

Tudo isso não passa de um escudo feito “sob medida para você”, mas que na verdade serve para proteger esse sisteminha de minoria contra a possibilidade de conflitos, de desconforto social e suas consequências que podem atingir proporções revulocionárias. Afinal, quem é que não se sente confortável consigo mesmo?

E o menino de trinta e nove anos, o qual ainda é repreendido inconscientemente pela mãe para que não fale com estranhos na rua, não resiste à curiosidade e pergunta: “mas por que essa boca tão grande?”